sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mãe, o que é...?




Sempre gostei de palavras diferentes ou pouco usadas. Gostava e ainda gosto de aprendê-las.

Minha primeira lembrança com uma palavra marcante foi aos nove ou dez anos, não lembro ao certo. Ainda fazia meu terceiro ano da escola  primária quando uma professora, que por algum motivo não me lembro o nome, nos levou a um passeio ao PLANETÁRIO DA GÁVEA. Foi um dia memorável! Lembro bem da minha excitação ao longo do caminho para aquele lugar que marcaria minha vida de forma indelével. 

Mesmo com toda a explicação da professora, o Planetário era muito mais do que ela poderia explicar para aquele pequeno grupo infanto-juvenil. Pelo menos prá mim! Alguns professores ainda subestimam a inteligencia das crianças. 

Lembro bem da chegada, de como exploramos cada metro daquele lugar atapetado,de corredores com iluminação incomum, mas nada se comparou ao delírio de ver o dia amanhecer e anoitecer em tão pouco tempo e à medida que a cadeira se inclinava e nos deixava quase deitados. E eu estava lá, sentada, admirando aquele espaço desconhecido e misterioso. 

Naturalmente ao fim da nossa expedição celeste, deveríamos fazer uma redação sobre o passeio, as experiências daquele dia enfim. 

Cheguei em casa cheia de novidades e ávida por descrever tudo o que vi e rapidamente peguei o caderninho para o rascunho daquela que seria, a meu ver,  a redação da minha vida!

Curiosa, procurei saber mais sobre algumas coisas que vi  naquele céu ilusório. Tive acesso a enciclopédia da época “CONHECER” sobre astros, estrelas, planetas e logo me apareceu o termo: ABÓBADA CELESTE*. Fiquei impressionada com o termo e fui buscar alguém que me explicasse melhor porque eu queria expressar da melhor maneira o que eu tinha vivenciado ali. 

Fiz minha redação num papel almaço, como era de costume, com uma dobra de dois centímetros à esquerda, com uma letra bem bonitinha!  Na manhã seginte, exultante, entreguei à minha professora e fiquei aguardando ansiosa o resultado.

Ouvia meus amiguinhos falando de estrelinhas, da lua, dos planetas, mas ninguém falava da tal ABÓBADA” . E eu só pensava nela...

Não posso hoje, de forma nenhuma criticar aquela professora pelo que fez, mesmo que aquilo pudesse me ter feito desistir prá sempre das palavras. Pelo contrário, ela me desafiou a ser uma eterna buscadora de palavras incomuns ou em desuso por pura falta de preguiça.

Não quero também alimentar  lembranças hostis, mas preciso registrar apenas algumas partes marcantes da sua fala.

- “ Silvinha, meu bem, quem fez esse trabalhinho prá você?”

-“Eu mesma, professora! Respondi orgulhosa.

- “Meu bem, uma criança na sua idade não conhece o termo ABÓBADA CELESTE (estava grifado em vermelho no meu trabalhinho!)

Tive uma infância difícil. Chorava por qualquer coisa. Naquele dia não foi por qualquer coisa. EU SABIA O QUE ERA ABÓBADA!  Antes de saber o que era, logo que li pela primeira vez, na minha cabecinha se materializou uma ABÓBORA e tudo de repente ficou cor-de-abóbora (será que é por isso que, até hoje, essa cor me atrai?)  Mas aprendi o que era! Não era justo!

Quando meu filho mais velho, Thiago, hoje com 27 anos, tinha apenas cinco anos, entrou no meu quarto e me surpreendeu com a pergunta: “Mamãe, o que é psicologia?” Diante do meu evidente embaraço, procurando uma forma de explicar aquela palavra a alguém tão pequeno ele tentou aliviar e foi além:

Não sabe??? Não tem problema. Então, o que é perspectiva????”

Aprender palavras e saber o significado delas enfim, tem uma idade certa para acontecer? Quem pode definir quando podemos aprender sobre as palavras? O que leva os pais a restringir o vocabulário doméstico quando nasce um bebê e toda a casa se desdobra prá conversar aquela conversinha imbecil, tati-bi-tati, até que enfim, o bebê cresça e perca de vez o interesse pelas palavras?

Não sem razão hoje me aventuro na escrita. Não sem razão também o Thiago tem se revelado no mundo da escrita. Confesso que tenho um certo bloqueio para línguas estrangeiras. Talvez se deva ao fato de ainda estar descobrindo novas palavras da minha língua. São tantas palavras...

Nunca mais voltei ao Planetário da Gávea. A única vez, depois de muitos anos, que tentei chegar lá me perdi no caminho...

Agora que cresci, sem meus olhinhos infantis, não sei se terei o mesmo impacto, mas certamente descobrirei uma nova palavra prá revelar meu êxtase, ainda que eu vá só para ver estrelinhas...

Se um dia acontecer, eu conto. Prometo que conto.

Salvador, muitos anos depois, debaixo de um luxuoso céu enluarado, numa segunda-feira, no dia dois de março de dois mil e nove.