MEU PÉ-DE-CABRA
Estou pensando em vender meu pé-de-cabra. É um pé-de-cabra antigo, é bem verdade, mas tem história... É quase uma relíquia de família e por isso eu penso tanto ainda se me desfaço dele ou não. A gente acaba se apegando a essas coisas e deixa de perceber quando de fato elas se tornam obsoletas.
Minha mãe usou tantas vezes e talvez da mesma maneira que minha avó tenha usado, que deixou nele algumas marcas, desgastes, e quando, com o passar dos anos, nós outras fomos usando, acabávamos por usá-lo da mesma maneira que minha mãe e minha avó e então... cometíamos os mesmos erros.
Coitada da mamãe! Anos a fio usando aquele pé-de-cabra para tentar arrancar alguma coisa do papai e ele lá... fechadão... Ria, brincava, dançava, bebia, mas quando tinha que falar... E ela lá. Com o pé-de-cabra sempre na mão.
Na verdade ela muitas vezes até conseguiu, com jeitinho todo especial, dando uma forçadinha aqui, outra ali, arrancar alguma coisa.
É engraçado. Às vezes a gente fica observando alguém usar com dificuldade uma ferramenta e fica imaginando que na nossa mão... Ah, seria tudo diferente!
Eu mesma sonhava em um dia poder usar aquela ferramenta de forma diferente. Primeiro, eu tentaria pelo modo convencional, usando a parte reta como uma pequena alavanca para separar as superfícies, depois com um pouco mais de folga, poderia até, se fosse preciso, usar a parte fendida para retirar o prego de uma só vez. Parecia-me tão fácil... Mas, se estivesse me dando muito trabalho, pegaria aquele pedaço de ferro, não usaria nem uma extremidade nem outra: daria uma pancada fatal e pronto! Assunto encerrado.
Mas como disse, meu pé-de-cabra tem desgastes, marcas, vícios mesmo. Acabei fazendo tudo igualzinho. Tentando os mesmos métodos, usando a mesma ferramenta antiga, quando já podia desfrutar, no meu tempo, de outras mais modernas. Será que sou, enfim, tradicional?
Nessa brincadeira com o pé-de-cabra, o tempo foi passando e acabei achando que já estava na hora de fazer experiências novas com o mesmo pé-de-cabra, só que agora, fora de casa. Sim, pois já que não havia conseguido grande sucesso tentando abrir aquelas caixas conhecidas que moravam comigo, marido, filhos, pai, mãe, irmãos, quem sabe conseguisse... com os amigos?
Animei-me! Fui à luta. Eu e o meu inseparável pé-de-cabra. A essa altura eu já havia aprendido, no mínimo, a saber o que NÃO fazer nas minhas tentativas. Mas pasmem: fiz pior! Algumas vezes fui delicada demais e enquanto eu arrancava os pregos demoradamente... a oportunidade havia passado. Em outras, investia com fúria e descobria que o esforço não valia a descoberta. Em outras ainda até consegui com facilidade, mas a responsabilidade de cuidar de todo o conteúdo da caixa era assustadora.
Talvez devesse mesmo desistir desse negócio de pé-de-cabra, afinal, de onde veio essa idéia? Por que isso sempre é colocado no berço das mulheres quando cada uma nasce? Sim, quero saber!
Talvez devesse mesmo desistir desse negócio de pé-de-cabra, afinal, de onde veio essa idéia? Por que isso sempre é colocado no berço das mulheres quando cada uma nasce? Sim, quero saber!
Acabei descobrindo algo com isso: Sou uma mulher. Apenas uma mulher. Mulheres, em geral, não tem muita intimidade com ferramentas pesadas e nem precisam ter. Pegar pesado não é o nosso papel. Mulher tem papel diferente de homem sim! Homens pegam pesado.
Delicadeza é a nossa ferramenta. Delicadeza com firmeza torna-se nossa melhor alavanca. Com elas conseguimos abrir os containers mais bem vedados, partimos os ferrolhos mais enferrujados e descobrimos verdadeiros tesouros. E com uma vantagem: se as coisas não forem ou não saírem como esperamos, usamos a delicadeza e a firmeza para completarem o serviço sem marcas.
É. Decidi: Vou vender meu pé-de-cabra. Talvez alguém ainda ache interessante comprar algo assim para um uso tão insólito. Mas vou avisar a quem comprar: só use com absoluta consciência de que não há outro recurso. Mas vou vender. Ele já me deu tantos prejuízos que preciso de ressarcimento. Por quanto vou vender? Boa pergunta! Como calcular o valor de algo que já não tem mais valor? Valor sentimental? Sem essa! Que sentimento terei por algo que durante anos torturou tantas pessoas que amei e que acabaram sendo feridas ou ferindo?
Não. Não posso vender. Já sei. Vou guardá-lo no fundo da minha caixa de ferramentas e deixá-lo por lá sem que ninguém mais tenha acesso a ele. Não o darei à minha filha ou à minha sobrinha*. Quero ensiná-las a usar a delicadeza aliada a firmeza. Elas nunca saberão que um dia houve um pé-de-cabra.
* ou à minha neta! Em abril de 2002 qd espremi essa polpa, nem sonhava com a possibilidade de ter uma neta. Hj isso já é uma possibilidade!
Não voltei de férias ainda, mas hj vasculhando "alfarrábios" (nooossa q palavra antiga!), encontrei essa polpa e antes q estragasse, resolvi postar.
Até a volta!

Já experimentou usar um abridor de latas? kkk
ResponderExcluirBeijoca,
Sergio Viula
kkkkkkkkkkk Mas só deixaram esse pé-de-cabra no meu berço... Talvez coloque no berço da minha neta kkkkk Vlw a dica!
ResponderExcluirBeijocas, moço!